O livro de
areia (1975)
Jorge Luís
Borges
Obras
Completas III, Editora Globo.
Então, é
importante colocar as coisas no seu devido lugar, uma vez que as pessoas que um
dia, por ventura, leiam meus textos, encontrarão em Borges uma afiliação
inegável. Dito isso, já que o adotei como um dos meus maiores (no sentido
familiar que os espanhóis dão a essa expressão), é justo agradecer a Mariel
Reis por tê-lo me apresentado, ali nos corredores do Centro Cultural Banco do
Brasil, e a Diomar Oliveira por ter me emprestado livros inesquecíveis e
“indevolvíveis”. Ambos já me perdoaram a incapacidade de compensá-los com algo
do mesmo tamanho.
Conheci o
“O livro de areia” nos tempos do “Conversando Literaturas”, encontro da época
da faculdade, que para mim foi tardia. Nele, encontrei um dos meus motes
preferidos (O outro*) que daria em tantos textos, como “O encontro marcado”, e,
claro, o primeiro conto de temática amorosa – soube, depois no epílogo, pelo
próprio autor, que foi o único, tão avesso ao patético em literatura.
Borges
atingiu, creio, a bela capacidade de não fazer textos ruins. Se, por acaso,
devido à automática comparação, base de todo refinamento, quando pensamos em
sua arte, surgem imediatamente os seus badalados “Ficções” e “Aleph”,
não há como não considerar relevantes livros como “Os jardins das veredas que
se bifurcam”, o famoso “História universal da infâmia” e este livro de areia –
deixo sem as aspas para permitir a ambiguidade.
Não é
necessário repetir a ladainha sobre a sua erudição e, apesar disso, da sua
modestíssima opinião sobre si mesmo – modéstia tão legítima que aponta “seus
maiores” no epílogo – sempre – preciso (e precioso) do livro. Sua erudição transforma, de
certa forma, vários contos em um verdadeiro xadrez e o leitor, ainda que
enriquecido, fica com a sensação de que perde um pouco as jogadas.
Vejamos.
***
É assim no
encontro dos dois Borges (O outro), um que sonha no sono e o outro que sonha
acordado. A ideia do banco que existe em dois tempos é a perfeição da astúcia
do artista. Perfeito. 8
Ulrica é
um presente, talvez mais fruto do intelecto do que da criatividade (e eis que
deixo a você entender o que eu digo), o que faz desse conto excelente – a
conquista amorosa se dá no encaixe de senhas que vão produzindo o encantamento;
na verdade, é assim em todos os casos –, o que faz desse conto um pouco menos
surpreendente que o anterior (e me faz pensar que a intuição é maior que o
intelecto). 8
O
congresso é a continuação de uma ideia borgeana já conhecida de seus leitores.
O congresso do mundo é o próprio mundo. A busca por um arquétipo de cada ser é
o próprio ser que está em todos os seres – de modo que apenas um ou então
somente todos bastam. Evidente que a presença da biblioteca – e da literatura
como possibilidade de armazenamento da “humanidade” – é representação do autor
de sua predileção pelos livros a qualquer outra criação humana. 6
There are
more things e “A seita dos trinta” são artefatos da astúcia – da
intelectualidade do escritor –, porém que não me pareceu tão atraente, sobretudo
quando comparado aos dois primeiros. 5
A noite
dos dons é uma boa história com um desfecho digno da sabedoria tão propalada
quando falamos de Borges. Interessante também o nome da índia: Cautiva. Não é,
pelo menos pelo que conhecido, comum a Borges a utilização dos nomes das
personagens como sinais. 6
O espelho
e a máscara retoma a ideia da busca de um poema perfeito. Acho interessante
sinalizar para o fato de que o poema perfeito (digamos, academicamente) é
inferior ao poema imperfeito. Com esse conto – como em outros, é óbvio – algo se
aprende. 7
Undr trabalha temática próxima ao conto anterior, que seria o poema (que pode ser de
uma palavra só) inalcançável. O poema que poderia ser o verdadeiro nome de
deus. Interessante enquanto ideia, bem escrito (óbvio), entretanto, me parece
que o resultado é menor do que a ideia (provavelmente é assim em tudo). 6
A utopia
de um homem que está cansando, embora o título me desagrade, me pareceu
interessante, pois esse homem (o próprio Borges?) fala “frases enormes”
(axiomas, máximas) e diz em certa parte “Certamente. Restam-nos apenas
citações. A língua é um sistema de citações.”. Isso me faz lembrar livros e
autores de certa forma idolatrados por escrever de forma proverbial (Nietzsche
e os livros religiosos). Esse tipo de preferência me assusta pela capacidade de
aproximação do texto com a fantasia e vice-versa. Pensarei mais sobre isso, um
dia.
Há ainda a
questão do esquecimento. 7
O suborno é interessantíssimo e me fez novamente pensar em um jogo de xadrez. Excelente.
8
Avelindo
Arredondo é um conto muito bom. O último parágrafo é um fechamento com chave
de ouro (desculpem o clichê). 8
O disco é
interessante e me fez pensar que poderia fazer parte do “História universal da
infâmia”. Para além da história, há o aspecto interessante da 4ª dimensão. 7
O livro de
areia só pelo título já é um espetáculo de poesia. A história não lhe diminui.
8
O epílogo é
Borges, sendo um gênio modesto.
***
* Fico sabendo então que sou herdeiro de Stevenson, que não conheço. Nesse tipo de herança, claro, o honesto é que a fortuna vá para os que fizeram antes.
***
Terminada essa leitura e me sentindo tão enriquecido, me dá uma tristeza por ter perdido tempo lendo "O leite derramado"... Mas, enfim...


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